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UM PERFIL DE SANTOS DUMONT

Tolerante e paciente com os amigos, exigia deles, no entanto, uma enervante pontualidade. Raul de Polillo comenta que “Santos Dumont gozava de saúde excelente, a despeito do corpo franzino e de uma infância considerada débil. Não se entregava a prazeres intensos. Mas dormia pouco, demorava-se longo tempo, satisfeito, em reuniões de ordem social”.
Em quanto que, em 1903, proclamava que os balões ou dirigíveis poderiam ser eficientes numa guerra, em missões de reconhecimento aéreo ou mesmo de bombardeio, ao deflagrar a guerra de 1914/1918, mudou ostensivamente de opinião, tornado-se , tornando um inimigo inconteste da guerra, e angustiado passou a ver na sua dileta criação – o avião – uma das mais temíveis armas de guerra.
Os apelos que fez não encontravam éco; além dos sustos, das canseiras, das emoções, dos inúmeros acidentes sofridos, da inveja de muitos e da incompreensão de tantos outros, estava a afligir, em sua mente já tão conturbada, o fantasma daquela insidiosa guerra.
E, cada vez mais oprimido, principiou a afastar-se dos meios sociais, mergulhando num mundo todo seu, melancólico e impenetrável, onde a tristeza, a angústia e o remorso se faziam presentes. Era, como já foi dito, a revolta do criador contra a sua criação.
Tendo sido figura do primeiro plano na alta sociedade parisiense, acabou por abandonar tantas honrarias e amizades, recolhendo-se a uma acolhedora casa que mandara construir na simpática cidade de Petrópolis.
Essa casa a “Encantada”, passou s ser o seu retiro espiritual, onde a tristeza inseparável embargava-lhe a voz e a amargura deteriorava a mente do aviador.
Era um incompreendido e introspectivo. Um doente de recordações. A estampa de um compelido macambúzio. Destemido, mas emotivo. Tento perdido a liberdade de voar, a depressão e a nostalgia prendiam-lhe à terra.
O destino havia lhe reservado-lhe uma velhice obscura, solitária e desamante. Era tarde para mudar o seu rumo, a sua vivência.
De certo modo julgava-se recompensado; na sua melhor fase, por ocasião da vitória sobre o espaço, vivera pouca, mas vivera intensamente.
Morreu solteiro. Quando jovem dizia que não poderia construir família enquanto se entregasse ao seu objetivo maior, a conquista do ar.
Achava que não poderia conciliar as duas atividades: ser chefe de família e dedicar-se ao vôo. Qualquer das responsabilidades que tomasse, viria a prejudicar a outra.
Considerava o “dirigível, o biplano e o monoplano – a minha família”, e disso nos dá prova, através de um desenho autografado, feito em 8 de janeiro de 1929, impresso nesta revista.
Encontram-se citações nas quais Santos Dumont é apontado Ter sido noivo por várias vezes. Na realidade, alguns de seus biógrafo divergem bastante ou se omitem, porém, não resta dúvida de que, a vida sentimental do notável pioneiro, pouco se conhece.
Ou então, conforme esclareceu um deles, “calam-se sobre fatos de que naturalmente exigiram discreção do Valet de Chambre”.
De uma maneira generalizada, os biógrafos de SANTOS-DUMONT costumam disseca-lhe a sua vasta obra desenvolvida, visando o único interesse em conquistar o espaço, seja através dos aparelhos mais-leves-que-o-ar ( balões esféricos ou dirigíveis), seja por intermédio dos mais-pesados (aviões).
Nem todos, porém, analisaram com maior profundidade os traços íntimos desse homem que foi dotado de um gênio extraordinário.
Na verdade, a personalidade de Santos Dumont é deveras marcantes; como qualquer outro indivíduo tem sua índole própria, seu caráter pessoal, enfim, sua peculiaridades.
Como bem assinalou seu sobrinho, “Santos Dumont” trazia em si o espírito dos bandeirantes que sentia a ânsia da conquista, o gosto da aventura”.
Possuindo pequena estatura (cerca de 1,52m) e cumprindo voluntário regime nunca deixou subir o seu peso de 50 quilos. Costumava dizer que “o aviador não podia ser muito pesado”.
HENRIQUE DUMONT VILLARES traça-lhe um perfil, escrevendo: “Fisionomia atraente, cabeça calva e grande, testa larga sobre os olhos castanhos e um tanto salientes, que sobrancelhas alongadas acentuavam. Sob o nariz forte e rombudo, um pequeno bigode aparado curto. Dentes grandes e alvos, tez clara e corada, olhar penetrante”.
Gostava das caminhadas. Muito metódico e organizado, era dotado, também de uma simplicidade natural. Não gostava de fumo ou da bebida. Quando bebia, era muito pouco, e assim mesmo, somente às refeições.
Gostava muito de freqüentar os espetáculos teatrais e concertos. Tinha nítida aversão ao jogo e a tudo que se revelasse uma frivolidade, um lugar-comum.
Admirava a prática de esportes, sobretudo o tênis.
Não tendo horas limitadas de trabalho, empenhava-se com afinco nos seus projetos e realizações; os amigos e colaboradores não raro surpreendiam-se com a sua excepcional capacidade de discernimento e trabalho, realizando em tempo surpreendentemente curtos, tarefas que pela sua natureza, demandavam uma duração prolongada.
Não há dúvida de que, esse continuado labor exigia de Santos Dumont uma grande tensão, desgastando-lhe muito a saúde.
O seu hangar era seu ponto de reunião dos amigos e das grandes personalidades. Por algumas vezes chegou a receber visita dos Reis da Bélgica (Leopoldo II) e da Espanha, do Príncipe de Mônaco, assim como a Condessa D’EU ( a Princesa Isabel, casada com o Conde d’EU, genro de D. Pedro II).
No Hangar da Mônaco, recebeu a visita, em 1902, da Imperatriz Eugênia, viúva de Napoleão III, fato amplamente noticiado pela imprensa local, pois aquela figura da realeza desde a morte do marido, não comparecia a qualquer ato social!, decorrido cerca de trinta anos.
Essa visitação testemunha o enorme prestígio que desfrutava Santos Dumont.
Mas o triunfo e o sabor da vitória não lhe tiravam aquela simplicidade que já era peculiar. Santos Dumont era afável para com todos, sobretudo com seus operários e colaboradores, embora fosse exigente em relação ao trabalho.
Entrementes, é oportuno citar um artigo escrito por Gabriel Voisin, famoso aviador francês e grande amigo de Santos Dumont, e publicou no número 11 da revista “Pionniers” ( janeiro de 1967), editado pelos “Vieilles Tiges”.
Voisin relembra, com dedicação, os reconhecidos feitos do nosso patrício, recordando inúmeros episódios da vida do “Pai da Aviação”.
Recordou que, “em certo dia de 1926 o meu velho amigo (referindo-se a Santos Dumont) passou pelo escritório em ISSY-LES-MOULINEAX. Alberto inquieto e muito acanhado. Mas as suas atitudes tornou-se explicável, quando, em meio às palavras tímidas proferidas, pediu a mão de minha filha em casamento! Como explicar àquele homem prodigioso que isso não seria possível? Janine (a filha) tinha então 17 anos e o meu amigo passava dos 50...”
Aliás, em carta enviada ao jornal “O GLOBO”, é transcrita na edição de 2 de agosto de 1956, Voisin assinala, em determinado trecho: “Santos Dumont era um dos meus melhores amigos. Se ele não se tornou meu genro, é que uma muitíssima diferença de idade o separava de minha filha, Janine Voisin”.
Santos Dumont costumava ter, em certa época, na sua ,mesa de trabalho, um porta-retrado de uma famosa Cubana de nome Aída de Acosta.
A sua afeição por essa corajosa jovem deve ter sido em mais alta consideração, pois o aviador chegou-lhe a ensinar a “pilotar” o seu dirigível “Nº 9”.
Com afeito AÍDA DE ACOSTA tornou-se a primeira mulher do mundo, a conduzir– sozinha -– um dirigível.
Após algumas aulas ministradas por Santos Dumont, Aída de Acosta ascendeu com o “Nº 9”, em 29 de junho de 1903, do campo de aerostação de Neuilly, e pilotando “solo”, conduziu o dirigível até o Prado de Bagatelle, distante quase uma milha, pousando sem qualquer imperfeição.
Santos Dumont irradiante de satisfação com o transcorrer daquele sereno vôo, acompanhava do seu automóvel, a rota do “Nº 9”, sempre vigilante e atento às manobras de sua eficiente aluna.
Sabe-se, com certeza, que Aída de Acosta não chegou a ser noiva de nosso patrício; casou-se ela com um advogado norte-americano.
Uma crônica publicada no “Jornal do Comércio”, do Recife, em 27 de março de 1964, refere-se a um livro de autoria do diplomata e escritor Luiz Gurgel do Amaral, onde num capitulo dedicado a Santos Dumont, entre outras considerações, descreve que o “Pai da Aviação” quando esteve no Chile, em 1915 ou 1916, andou atarefadíssimo nos amores”.
E mais: “Solteirão empedernido, cavalheiresco e de aparência gentil e própria, amoroso por natureza, tinha marcado fraco pelo sexo frágil”.
Realmente, Santos Dumont esteve em Santiago do Chile em março de 1916, onde tomou parte, de maneira destacada, no Primeiro Congresso Pan Americano de Aeronáutica, transcorrido naquela capital.
E, do Chile, trouxe ( porque pode ser apreciado no Museu da “A Encantada”), um porta-retrato com a fotografia e dedicatória de uma encantadora pessoa, a chilena Maria Luiza.
Até que ponto a meiga Luiza teria influenciado o coração do aviador?...

FERNANDO HIPPOLYTO DA COSTA

Fonte: SULPEMENTO PEDAGÓGICO Ano..: agosto/73 Pag..: 10

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Banco de Imagens

Varias Imagens do Ilustre Santos-Dumont

Várias Viagens e o "Prêmio Archdeacon"
Cronologia

 • 20/07/1873 - Nascimento de Alberto Santos Dumont

 • 20/02/1877 - Batismo de Alberto Santos Dumont

 • 18/09/1898 - Vôo do Primeiro Balão Dirigível

 • 1904 - O Livro

 • 23/10/1906 - Primeiro Vôo Mecânico do Mundo

 • 12/11/1906 - Recorde do Pai da Aviação

 • 1907 - É Constituído o Primeiro Avião Tipo "Demoiselle"

 • 1908 - Relógio de Pulso

 • 1910 - Inauguração do Monumento em Honra a Santos Dumont

 • 19/10/1913 - Segundo Monumento é Inaugurado em Homenagem a Santos Dumont

 • 1918 - A Encantada

 • 1929 - Santos Dumont Recebe a Comenda de Grande Oficial da Legião de Honra

 • 04/06/1931 - Santos Dumont é Eleito Para a Academia Brasileira de Letras

 • 23/07/1932 - Morte de Santos Dumont

 • 05/12/1947 - Tenente Brigadeiro do Ar

 • 22/09/1959 - Marechal do Ar

 • 19/10/1971 - Patrono da Força Aérea Brasileira.