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O Inventor Generoso


O 14-Bis de Alberto Santos-Dumont não fez o primeiro vôo da história da aviação. Em 2003, ano em que se comemora o centenário do vôo histórico dos irmãos Wilbur e Orville Wright, a comunidade científica internacional está convencida do pioneirismo dos americanos - que saíram do chão no Flyer, uma máquina mais pesada que o ar, no dia 17 de dezembro de 1903, três anos antes do vôo do brasileiro no campo de Bagatelle, em Paris. Nos Estados Unidos, onde a conclusão em favor dos filhos da terra pode soar suspeita, mas também na Inglaterra, na Alemanha e inclusive na França (onde Dumont realizou suas façanhas e é admirado até hoje), a questão sobre quem foi o primeiro está encerrada. No Brasil, no entanto, a polêmica continua. Muitos estudiosos já admitem a primazia dos americanos, mas alguns pesquisadores e os herdeiros do inventor continuam defendendo a liderança de Dumont. Acusam a máquina de propaganda dos EUA de propagar a falsa vitória dos Wrights. Em meio ao carnaval que os americanos preparam para comemorar, no dia 17 de dezembro, os 100 anos do vôo dos dois irmãos, surge uma biografia laudatória e completa do brasileiro - escrita justamente por um “gringo”

Wings of Madness - Alberto Santos-Dumont and the Invention of Flight (Asas da Loucura - Alberto Santos-Dumont e a Invenção do Vôo), do jornalista Paul Hoffman, chegou às lojas americanas há três semanas e será lançado no ano que vem no Brasil pela editora Objetiva. No livro, o autor - formado pela Universidade de Harvard, ex-presidente da Encyclopaedia Britannica e ex-editor da revista científica Discover - não atribui o vôo inaugural ao mineiro, nascido na pequena Cabangu em 1873. Afirma que os Wrights foram os primeiros. Ainda assim, presta um serviço à memória do herói brasileiro apresentando-o a um público que ignora sua existência.
O próprio Hoffman admite que jamais ouvira falar de Dumont até 1996, quando um amigo que tinha passado férias no Brasil lhe contou sobre o personagem. Ele imediatamente decidiu escrever a biografia. "Todos conhecem os Wrights, mas é preciso restaurar a figura de Santos-Dumont”, disse o escritor a ÉPOCA. “Ele pode não ter sido o primeiro, mas tinha uma visão da aviação mais humana que os Wrights. Os americanos queriam dinheiro, eram gananciosos. Dumont era um humanitário pacifista”, completa. “O mundo seria melhor se as idéias dele tivessem prevalecido.”
Wings of Madness surge em meio às incessantes homenagens que o piloto do 14-Bis recebe no Brasil. A Jorge Zahar lançou recentemente Santos-Dumont e a Invenção do Vôo, do pesquisador Henrique Lins de Barros. A Nova Fronteira está preparando mais uma tiragem do luxuoso Alberto Santos-Dumont - Eu Naveguei pelo Ar. O jornalista Nelson Hoineff trabalha num documentário sobre o aviador. Mesmo que se admita não ter sido ele o primeiro, a veneração é mais do que merecida. Dumont foi o pioneiro em muitos outros aspectos. “Ele fez tantas coisas que a primazia dos Wrights não deve depreciá-lo”, diz Paulo Soviero, professor de aerodinâmica no Instituto Tecnológico de Aeronáutica e estudioso da história da aviação. “Ele continua sendo fundamental para o desenvolvimento do avião.”

Wings of Madness aponta todos os avanços de Dumont. O brasileiro demonstrou que máquinas voadoras podiam ser controladas pelo homem ao realizar um circuito ao redor da Torre Eiffel com um dirigível, em 1901. Depois do 14-Bis, cujo vôo histórico foi realizado diante de centenas de testemunhas às 16h45 do dia 12 de novembro de 1906, ele passou o leme para a parte de trás da aeronave, dando um imenso e definitivo salto tecnológico. Fez um projeto que teria as linhas copiadas por muitos outros inventores: o veloz e gracioso Demoiselle, apresentado em 1909. “Os brasileiros deveriam se preocupar mais em divulgar o que ele realmente fez”, sugere o pesquisador francês Stéphane Nicolaou, do Musée de L’Air et de L’Espace, autor do livro Santos-Dumont: Dandy et Génie de l’Aéronautique (Santos-Dumont: Dândi e Gênio da Aeronáutica). “A defesa de uma tese derrubada no mundo todo é nacionalismo exagerado, está fora da realidade.”

O livro de Hoffman conta em minúcias as fascinantes e inéditas experiências com balões mais leves que o ar, e, posteriormente, com aviões. Aos Wrights, além do primeiro vôo da História e dos recordes de permanência no céu, sobram palavras pouco lisonjeiras. Hoffman vai direto ao ponto: eles custaram a solucionar o problema da decolagem, ficaram para trás na invenção do trem de pouso e além de tudo eram broncos sem elegância. “Wilbur tomava banho ao ar livre, com uma mangueira. (...) Usava roupas com manchas de gordura. Arrotava em público.” Foi difícil para os franceses, apaixonados pelo genial e refinado Dumont e atavicamente arredios aos americanos, engolir os irmãos toscos que só vieram a público defender sua invenção depois que a imprensa européia divulgou os avanços do brasileiro.
Hoffman dedicou-se ao livro durante três anos. Veio duas vezes ao Brasil, falou com descendentes de Dumont, foi a Cabangu e fez entrevistas - inclusive com Olympio Munhóz, ascensorista do hotel no Guarujá, litoral de São Paulo, onde o inventor se enforcou com a própria gravata em 23 de julho de 1932. Entre nascimento e morte, há relatos da infância de Dumont em Minas Gerais, cercado por livros de Julio Verne e H.G. Wells. Hoffman fala da primeira viagem a Paris, com a família, e da mudança definitiva para lá, quando levou no bolso a herança adiantada pelo pai doente e passou a não se preocupar mais com dinheiro.
A elegância do aviador é relatada em várias passagens. Quando realizava vôos no calor do verão parisiense, Santos-Dumont levava um terno sobressalente no fundo do cesto de seus dirigíveis para não voltar à terra empapado de suor. Era um sujeito calado, introvertido. Mas fazia marketing de si próprio. “Adorava se exibir diante das multidões, gostava de ser admirado pelos riscos que corria.” Era um paradoxo: um tímido narcisista. E foi um dos inventores mais generosos de toda a História. “Ao contrário de outros pesquisadores, incluindo os Wrights, que escondiam seus trabalhos, Santos-Dumont mostrava seus projetos a quem quisesse vê-los, e se deixava copiar”, conta Hoffman. “Queria difundir suas invenções.”

O que chama a atenção no livro não é nenhuma revelação inédita, e, sim, cabe repetir, o fato de ter sido escrito por um americano e lançado no centenário do feito dos irmãos Wright. O que Hoffman fez foi reunir em um único volume, repleto de pormenores, histórias, informações e casos que estavam espalhados em outras biografias e em documentos dispersos por diferentes museus. Mas há, sim, um tema explorado mais a fundo pelo americano: a suposta homossexualidade de Dumont. Sem afirmar categoricamente que o aviador era gay, o jornalista cita reportagens publicadas naquele período que descreviam o inventor. Uma edição do New York Mail and Express de 1902 trouxe um texto cheio de sugestões: “Ele dedica seu tempo livre aos bordados e ao tricô, trabalhos manuais considerados exclusivamente femininos. (...) Tudo em sua casa é de muito bom gosto, e nada indica, em nenhum momento, um toque masculino”. Hoffman aponta o homem que teria sido seu parceiro, o cartunista George Goursat, conhecido como Sem. Afirma, porém, que as mulheres se jogavam em cima de Dumont, atraídas pelo charme. “Na verdade, ele era bastante assexuado”, encerra Hoffman.
O sociólogo Marcos Villares Filho, sobrinho-bisneto de Dumont, leu Wings of Madness. Ele louva a iniciativa do americano, mas discorda de alguns pontos. A homossexualidade é um deles. “Não há evidências”, diz. “Ele era apenas um homem tímido e reservado, que dedicou a vida a suas invenções e preferiu não ter uma família.” Villares Filho, como a maioria dos parentes de Dumont, defende o ineditismo do vôo do 14-Bis. “Não há quase nenhum registro do vôo de 1903, e a História é feita de registros”, argumenta. “Nós, brasileiros, temos de defender Santos-Dumont como os americanos defendem os Wrights.” Sinal de que a polêmica, enterrada no restante do mundo, está muito viva no Brasil. E, acima de tudo, sinal de que Santos-Dumont foi - e continua sendo - uma das figuras mais influentes e interessantes da história das invenções

ATAQUE E DEFESA

Três argumentos dos brasileiros contra a primazia dos Wrights, e as respostas dos americanos

- Não há testemunhas oficiais do vôo de Orville e Wilbur Wright
Cinco pessoas viram, mas eram leigos curiosos. Os Wrights mantinham os vôos em segredo para evitar que o projeto fosse copiado. Anos mais tarde, apresentaram como provas uma foto que seria daquela tarde e um telegrama enviado ao pai contando a façanha. Outro argumento é que seis vôos subseqüentes - todos anteriores ao de Dumont em 1906 - foram presenciados pela imprensa local.
- O vôo de 1903 foi feito com uma catapulta, não houve decolagem
Defensores dos Wrights dizem que eles usavam catapultas - mas só a partir de 1904, e apenas em dias de pouco vento a favor. Mas a maioria dos estudiosos da aviação admite: mesmo que fosse com auxílio externo, ainda assim o vôo dos americanos teria sido o primeiro. O que está em questão não é a decolagem, e sim a permanência no ar e o controle do vôo.
- Se os Wrights voaram em 1903, por que só vieram a público em 1905?
Mais uma vez, a justificativa está no medo de que a invenção fosse copiada. A rapidez no progresso posterior dos irmãos americanos - o vôo de uma hora e 54 minutos em dezembro de 1908, um recorde, e a inauguração da primeira fábrica de aviões do mundo em 1909 - seria a prova de que estavam trabalhando na invenção há mais tempo do que Dumont.

BEATRIZ VELLOSO

Fonte:www.epoca.com.br
Publicação: Nº 274 - 18 de agosto 2003

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Banco de Imagens

A Conquista do "Prêmio Deutsch" e Mais Duas Invenções, "Nº7 e o "Nº9"

Acidentes Sofridos Por Santos-Dumont ("Nº5" e "Nº6)
Cronologia

 • 20/07/1873 - Nascimento de Alberto Santos Dumont

 • 20/02/1877 - Batismo de Alberto Santos Dumont

 • 18/09/1898 - Vôo do Primeiro Balão Dirigível

 • 1904 - O Livro

 • 23/10/1906 - Primeiro Vôo Mecânico do Mundo

 • 12/11/1906 - Recorde do Pai da Aviação

 • 1907 - É Constituído o Primeiro Avião Tipo "Demoiselle"

 • 1908 - Relógio de Pulso

 • 1910 - Inauguração do Monumento em Honra a Santos Dumont

 • 19/10/1913 - Segundo Monumento é Inaugurado em Homenagem a Santos Dumont

 • 1918 - A Encantada

 • 1929 - Santos Dumont Recebe a Comenda de Grande Oficial da Legião de Honra

 • 04/06/1931 - Santos Dumont é Eleito Para a Academia Brasileira de Letras

 • 23/07/1932 - Morte de Santos Dumont

 • 05/12/1947 - Tenente Brigadeiro do Ar

 • 22/09/1959 - Marechal do Ar

 • 19/10/1971 - Patrono da Força Aérea Brasileira.