| O CENTENÁRIO DE SANTOS DUMONT
Com essa homenagem ao pai da aviação que tanto projetou o nome do Brasil no exterior, pois que Santos Dumont fazia questão de salientar, em todas as circunstâncias, sua condição de brasileiro, e, nos seu aparelhos não deixava de ostentar sempre a Bandeira do Brasil, o “MINAS GERAIS” proporciona, aos professores e estudantes, em geral, farto material para as comemorações que, certamente, todos realizarão.
Na personalidade curiosa de Santos Dumont, há determinados aspectos que merecem destaque como, por exemplo, sua obstinação e a sua certeza de vitória. Apesar de todas as dificuldades, todos os empecilhos, diversos fracassos, o homem obstinou-se: tinha que conseguir. Sua força de vontade foi qualquer cousa de fora de comum.
Seu patriotismo constituiu outra característica notável: em todas, os inúmeros aparelhos que construiu, a Bandeira do Brasil sempre estava presente. Em sua correspondência com membros do governo francês, sua condição de brasileiro era sempre destacado. Nos momentos de maior glória, ele atirava para o Brasil sua vitória como o fez na inauguração do monumento de Saint Cloud. Isso, entretanto, não impediu que sofresse, como sofreu, violenta campanha por parte de brasileiros inconformados, pelo fato de realizar na França as suas experiências. O grande invento nunca deixou de explicar que, somente ali, em Paris, dispunha dos meios de que precisava para construção e concertos dos aparelhos.
Curioso também é que todas as experiências, as construções, dos diversos balões e dirigíveis e dos aeroplanos, tudo, tudo, ele o fez a sua custa, à custa do dinheiro que seu pai dera ou lhe deixara, com sua morte. Nunca foi pesado a ninguém, jamais pediu auxílio a quem quer que seja.
Há também que salientar a nobreza de sua atitude, no que se refere a dinheiro. Depois que seu nome foi projetado no mundo inteiro, quando todos os jornais franceses o proclamaram o Pai da Aviação, diversas pessoas quiseram encomendar-lhe aparelhos de voar. Foi o que noticiou “LE MATIN”, de 17 de setembro de 1909. Depois de ouvir o inventor brasileiro, publicou o jornal francês: “Santos Dumont” não constrói nem deseja construir aeroplanos para vender. Põe seu modelo à disposição de todos; proporcionará todas as indicações para que se faça outro aparelho idêntico. Seu grande desejo é vulgarizar a aviação....”
Isso publicava o jornal francês, em 1909. Comparece essa atitude com a dos irmãos Wright, que tentaram vender seu aparelho aos Estados Unidos; insistiram, depois, em vendê-lo ao governo francês e, de diante do desinteresse dos governos norte-americano e francês, em adquiri o aparelho conhecê-lo e sem saber se realmente era o que pretendiam os proponentes, tentou insistentemente vendê-lo a grupos de industrias de Paris.
A propósito dos irmãos Wright, há conveniência em esclarecer determinados aspectos dessa pretensa prioridade norte-americana. Santos Dumont, pouco antes de falecer, em 1932, foi procurado por um repórter que lhe fez uma série de perguntas sobre a pretendida prioridade dos irmãos Wright. O Pai da Aviação negou-se terminantemente a abordar tal assunto: mas o repórter tem meios de quebrar todas as resistências. E o grande brasileiro acabou falando e com rara felicidade.
Se os irmãos Wright voavam desde dezembro de 1903, disse Santos Dumont, como se explica que não se sentissem atraído por grande prêmio que ele conquistara em 1906, e fossem a Paris, dois anos depois, para disputar um prêmio menor, de apenas 10 mil francos? Os irmãos Wright deixaram também de disputar um prêmio correspondente a cerca de 500 mil francos, em 1904, na Exposição de São Luís, bem pertinho do local onde, segundo se dizia, estavam voando...
Outro argumento notável de Santos Dumont: Gordon Bennet, milionário e proprietário de vários jornais, realizava ,na época grandes furos de reportagem: Seus repórteres iam à África, atrás de grandes caçadores; um repórter da “NEW YORK HERALD” foi a Paris, em 1906, assistir à grande vitória de Santos Dumont, em 23 de outubro, e proclamou, então, no seu jornal, que Santos Dumont realizara “o primeiro vôo mecânico”, pois bem, como se explica que esses repórteres de Gordon Bennet não descobrissem que os irmãos Wright estavam voando debaixo de seus narizes, num campo em cujas imediações passam um Bonde?
Em 1904, requereram os irmãos Wright, na Inglaterra, a patente de um planador(sem motor); mas, se voavam em aeroplano desde 1903, como se explica essa pretendente patente de um planador, em 1904?
Em 1905, os irmãos Wright ofereceram-se ao governo norte- americano para construir um aparelho capaz de voar. Houve resposta; as autoridades demostraram interesse em adquirir um aparelho que demonstrasse se capaz de voar... Entretanto, não foi apresentado aparelho, nem desenho, nem croquis... e o assunto morreu. No ano seguinte, 1906, os irmãos Wright fizeram idêntica oferta ao governo francês: queriam vender um aparelho capaz de voar. Mas, na ausência do aparelho, de desenho de croquis, claro que nenhum negócio poderia ser feito.
Depois disso, passaram a oferecer o aparelhos a grupos industriais de Paris, os quais fizeram uma única exigência: prova de que o aparelho seria capaz de levantar-se do solo e voar. Esta exigência encerrou as negociações.
Voltaram a insistir no oferecimento ao governo francês, mas este exigiu que fosse apresentado o aparelho capaz de voar...
Afinal, em 21 de setembro de 1908, apareceu os irmãos Wright em Paris, com seu aparelho. Verificou-se então o seguinte: seu aparelho não era capaz de se erguer do solo por si: tinha que ser colocado no alto de uma torre, onde, depois de correr sobre trilhos, era lançado ao ar por uma catapulta. Ele, na realidade, não voava: era atirado a grande distância. Isso explica porque não disputaram o prêmio de 1906, pois, então, as condições exigiam claramente que as rodas do aparelho se erguessem do solo. Tanto assim era que, em 1909, Anatole France escrevia: “Wright é o detentor de recorde de distância... Mas ele ainda não se ergueu vôo por meio próprio do aparelho”.
Convêm ainda esclarecer que os irmãos Wright jamais manifestarão qualquer pretensão, quanto a prioridade, em aviação. Foi por volta de mil novecentos e vinte e tantos, que alguns nativistas exaltados dos Estados Unidos “descobriram” a prioridade deles. Tanto isso é verdade que o aparelho de Orville Wright foi recusado pelo Smithsonian Institute, de Washington, por não considerar comprovados os seus vôos: foi, por isso, remitido para o Museu de Ciências de South Kesington, da Inglaterra.
WALDEMAR DE ALMEIDA BARBOSA
Fonte: SULPEMENTO PEDAGÓGICO
Ano..: agosto/73
Pag..: 11
Voltar |
|
Banco
de Imagens
|
|
|
| Cronologia |
|
|
|