| A Idéia de Mudar o Nome da Cidade de Palmyra Para Santos Dumont.
Os primeiros comerciantes da cidade foram aqueles que os confessaram no termo de 1906, na solenidade da entronização do Cristo Crucificado no Tribunal do Júri: José Maria Pereira da Silva; Paulino Scaldaferri (alfaiate); João Simão de Almeida; Reinaldo Soares de Souza; Pedro Pittella; João Lourenço Ferreira e Domingos Aloysio.
Antes destas havia as casas comerciais que vinham do tempo de João Gomes: a Casa Pittella, de que já ocupamos minuciosamente, a maior de todas, na rua do Matinho; também nesta rua, Braz Pansardi & Irmão; e na atual Getúlio Vargas, então rua Direita, Cunha & Irmão, que era muito sólida e conceituada, constituídas dos irmãos José Alves da Cunha e Luiz Alves da Cunha e data de 1876; Ferreira Alves, na rua Direita, com o lema “O sol nasceu para todos”.
A firma Braz Pansardi & Irmão que tinha como “Relações Públicas” um macaco que convivia com os fregueses e saltava célebre por todas as prateleiras, estava instalada na rua do Matinho e era constituída dos irmãos Braz – que regressou à Itália – e Vicente Pansardi que se casou com Maria Antônia de Araújo Pansardi, pais do grande prefeito Jacques Gabriel Pansardi, de Eugênio e Jacinta.
Já em tempos mais modernos, surgiu a Casa Carcacena, de propriedade de Jacy Lessa que foi uma antecipação dos atuais supermercados; muito sortida e com bons preços era procurada pela maioria. Jacy Lessa era um comerciante muito estimado e integrou a Comissão de recepção de Rui Barbosa. Mas tarde transferiu-se com sua família para Juiz de Fora, sendo seu filho, nosso confrade Jair Lessa, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Juiz de Fora.
Houve o Gayo, tão mencionado por Franklin Magalhães, em sua conferência em versos a Palmyra. Gayo era bondoso, proprietário de um bar em prédio onde hoje está instalado o Banco Real. Exibia uma vitrine sedutora e muito procurada, de excelentes frutas.
Um outro, que não tinha casa instalada, homem alto e humilde, era o estimado Spingolon. Com dois cestos presos a uma alça de madeira sobre os ombros, saía pela cidade anunciando peixe e camarão, uma vez por semana. Vendia tudo. E assim, semana após semana, por longos anos. Hoje não podemos mas contar com Spingolon. O jeito é comprar com sacrifício em Juiz de Fora.
Outra figura de largo convívio social e cívico da cidade foi Luiz Cosentino, membro da Comissão de Recepção de Rui Barbosa e, como tal, presente na famosa foto com o grande jurisconsulto. Foi presidente do tiro de guerra 62, oportunidade em que, como secretário, testemunhamos excelentes de improviso pronunciados por Luiz Cosentino que, estamos certo, não era homem de muitas letras, mas um entusiasta admirável. Tinha uma casa de calçados na rua Antônio Ladeira, com grande freguesia. Com seu entusiasmo conseguia vender até o calçado que não era da preferência dos fregueses. Um dia, Luiz Cosentino decidiu regressar à Itália com sua família. Consta que, na estação, sacudiu os pés para não levar à Itália a poeira de Palmyra. Mas as coisas por lá não iam muito bem e teve que voltar, após alguns meses.
Trouxe uma linda imagem de São Miguel para a Matriz, mas não agradou, pois não era o São Miguel e Almas. Não tinha espada nem balança. Não obstante, está lá. José Campos Henrique, nosso saudoso Careca, na reforma da Matriz, instalou-a num nicho que abriu na parede fronteira. Não foi uma idéia muito feliz, pois a imagem desbotou e quade ninguém a percebe.
Luiz Cosentino era um homem inteligente. Resolveu fazer os cursos Jurídicos no Rio de Janeiro onde se diplomou. Adquiriu mais tarde, de Sérgio Neves, a mais bela residência da cidade, continuou advogando no Rio de Janeiro, onde se casou e mais tarde veio a falecer.
Mais um grande comerciante de gêneros na zona sul da cidade foi José de Abreu. Sua casa comercial era muito procurada, notadamente pelo local em que se achava situada, o ponto onde a cidade se expandia. Mais tarde fundou, na Fazenda da Rocinha, um curtume que teve grande êxito.
Pela estima de que era alvo na cidade, participou discretamente na vida política, tanto assim que foi Chefe do Executivo Municipal que participou no almoço que a cidade ofereceu a Santos Dumont, na sua visita oficial, e é visto na famosa fotografia Sarubi em que Santos Dumont posou com seus patrícios à porta do hotel.
Não podemos deixar de citar ainda o Café Chaves, o mais importante ponto de encontro do povo de Palmyra e mesmo de Santos Dumont. Nele se resolvia todos os negócios da cidade. Nele se decidiu a mudança do nome da cidade. Foi na manhã de 21 de julho de 1932. Thiers Pais Leme Gama era encarregado do telégrafo da cidade, e estava a par das mais recentes notícias que ouvia no telégrafo em comunicação do Rio de Janeiro com Belo Horizonte. Desta forma ouviu a notícia do falecimento de Santos Dumont em São Paulo. Thiers se apressou em comunicar-mos a dolorosa notícia do Pai da Aviação que sabia ser filho de Palmyra. Encontro-nos trabalhando na Secretária da Prefeitura e indagou sobre o que fazer. Ocorreu-nos que seria muito importante mudar para Santos Dumont o nome da principal avenida da cidade, então a 15 de Fevereiro. Antes de qualquer iniciativa, seria bom tomar um café no Chaves. Encontramos lá também tomando o seu café o Quincas Cunhas, ou melhor, o advogado Dr. Joaquim Alves da Cunha. Contamo-lhes a dolorosa notícia. Quincas levantou muitos pois era amigo pessoal de Santos Dumont. O que fazer?
Um silêncio de início e logo a seguir um gesto impulsivo: “Mudem o nome da cidade”. A idéia veio como um tiro e Thiers nos observou de imediato: agora é a sua vez de agir, o problema está nas suas mãos.
Naquela mesma manhã, Jacques Pansardi, que era o Prefeito, chegava a cavalo da fazenda. Transmitimos a ele a notícia da morte de Santos Dumont e a idéia de mudar o nome de Palmyra para Santos Dumont. Jacques, sereno, não se assustou com idéia. Fora amigo pessoal do falecido, mas queria ouvir primeiro o Dr. Vieira Marques.
Fomos à residência de Dr. Vieira Marques, tomando-o ciente do que acontecera. – “Vocês já ouviram o Jacques? – Já, e foi ele que mandou-nos procurá-lo. – Está bem! Osvaldo, faça um memorial ao Presidente que levarei em mãos. Fomos à Prefeitura e redigimos o memorial ao Presidente Olegário Maciel. Vieira Marques levou pessoalmente a ele esse memorial.
No Palácio avistou-se primeiro com Gustavo Capanema, chefe da Casa Civil. Teve uma cordial recepção e expôs-lhes a preocupação de encontrar uma forma de homenagear dignamente Santos Dumont. Depois esteve com o próprio Presidente Olegário, sensível ao desejo povo palmyrense, transformando-o em realidade em apenas dez dias.
O Decreto 10.747, mudando o nome da cidade, foi promulgado a 30 de dezembro de 1932. A notícia estourou com grande surpresa na cidade. Todos estavam acostumados com nome de Palmyra, mas aos poucos Santos Dumont foi se impondo. A idéia teve ampla repercussão em Belo Horizonte, Rio e São Paulo. Foi uma justa homenagem de Palmyra a seu filho Santos Dumont.
Mas, no Café Chaves as discussões eram apaixonadas – uns se debatiam ardorosamente por Palmyra, outros defendiam Santos Dumont. Aos poucos os ânimos serenaram.
Mas tudo passou, e passou também o Café Chaves. O velho e querido Antônio Chaves, muito doente, recolheu-se ao leito.
No local do Café Chaves os filhos dele abriram uma primorosa casa de presentes, com artigos até importados, uma boa discoteca e exploração do ramo fotográfico. Tudo funcionou durante alguns anos. Mas vieram os dias difíceis para o comércio e hoje só subsiste o ramo fotográfico.
Vamos falar agora de José Abud, atacadista de gêneros alimentícios do País que, logo depois de vir de São João da Serra, com a família, firmou-se como comerciante mais importante da cidade. E de Antônio Abud, o estimado Tanus Abud, fundador da indústria de meias Palmyra, conceituada fábrica de meias para homens.
Foi o fundador do Rotary Clube e seu presidente por três vezes. Apresentando sintomas de moléstia cardíaca, moderou as atividades, mas era o Tanus sempre aplaudido e solicitado. Seu coração porém o traiu. Sentindo-se bem, foi a Juiz de Fora de automóvel para renovar a sua carteira. Ao submeter-se ao necessário exame de motorista, debruçou-se sobre o volante, vítima de colapso cardíaco.
A rua a qual inaugurou sua fábrica, hoje se chama rua Antônio Abud. Assim continua vivo na memória e na saudade de todos.
Resta mencionar ainda a Fábrica Sago, uma indústria que dominou o mercado nacional de bonecas e que atual com sucesso em nossa cidade. Era dos Irmãos Cunha, todos já falecidos.
Autor: Oswaldo Henrique Castel
Fonte: Livro “Uma Cidade à Beira do Caminho Novo”, Petrópolis, Editora Vozes Ltda. 1988
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